Quando Eu Nasci, Minha Avó Virou Ancestral
No dia em que abri os olhos pro mundo,
ela fechou os dela —
não como quem parte,
mas como quem passa a tocha.
Minha avó era mulher de pele marcada e olhar firme.
Filha de uma escrava liberta pela Lei do Ventre Livre,
mas nunca verdadeiramente livre.
Porque a liberdade na lei não limpa o chicote na memória,
nem apaga o silêncio imposto nas cozinhas, nas senzalas, nas salas de patroa.
Ela carregava a Bahia no passo,
o ferro da luta nas mãos,
e o axé no coração cansado.
E justo quando eu nasci —
ela partiu.
Fez da minha chegada um ritual de revezamento.
Saiu da vida e entrou em mim.
Carrego no sangue a força que ela não gritou,
as dores que ela calou,
os sonhos que ela não teve tempo de sonhar.
Minha primeira respiração foi o último sopro dela,
e talvez seja por isso que
respiro por duas.
Ela virou raiz,
eu brotei galho.
Ela se fez chão,
eu virei caminho.
Não chorei sua morte,
porque ela virou minha origem.
E desde então, cada palavra que escrevo,
cada causa que abraço,
cada afeto que semeio—
é ela, reencarnada no meu verbo.
Enviado por Edna Santana Dinha Inocente em 18/05/2025