Edna Maria

 

"À Flor da Pele."



Textos

O Chão do Olhar
Todos os dias eu calço os mesmos sapatos. Antes mesmo de sair de casa, sei que eles voltarão carregando muito mais do que poeira. Trarão histórias, silêncios, lágrimas escondidas e pequenos gestos de esperança. A rua já conhece meus passos, e eu aprendi que nenhuma caminhada é igual à outra. Atrás de cada portão existe um universo inteiro esperando para ser visto.

Bato palmas, chamo pelo nome, sorrio antes mesmo que a porta se abra. Nem sempre encontro quem fui procurar. Às vezes encontro apenas o silêncio. Outras vezes, um olhar cansado que há muito tempo deixou de acreditar que alguém ainda pudesse perguntar: "Como você está?"

É na busca ativa que descubro o invisível. Não apenas quem deixou de comparecer à unidade de saúde, mas quem, aos poucos, foi deixando de comparecer à própria vida. O medo, a pobreza, a doença, a solidão e o abandono também adoecem. E essas doenças raramente aparecem nos exames.

Dentro das casas vejo muito mais do que paredes. Vejo o remédio que acabou antes do fim do mês. Vejo o prato que já não alimenta como antes. Vejo o idoso que conversa com o rádio porque ninguém mais o visita. Vejo a mãe que transforma preocupação em sorriso para que os filhos não percebam o peso que ela carrega. Vejo crianças crescendo entre sonhos pequenos demais para a grandeza que merecem.

Há momentos em que tudo o que eu queria era resolver. Queria que bastasse uma visita para afastar a dor, uma palavra para vencer a tristeza, um abraço para curar toda a falta que mora naquela casa. Mas a realidade me ensina, todos os dias, que o cuidado também conhece seus limites. E talvez essa seja uma das lições mais difíceis de aceitar.

Nem toda necessidade cabe nas minhas mãos. Nem toda urgência depende da minha vontade. Há portas que eu consigo abrir. Outras precisam de políticas públicas, de equipes completas, de recursos, de decisões que ultrapassam o alcance dos meus passos.

Por muito tempo pensei que isso fosse fracasso. Hoje compreendo que não.

Aprendi que não fui chamado para carregar o mundo sozinho. Fui chamado para construir pontes. Sou a ligação entre a comunidade e o SUS. Sou quem percebe antes que o problema se torne urgência. Sou quem escuta quando ninguém mais tem tempo para ouvir. Sou quem conhece os nomes, os apelidos, os aniversários, as ausências e até os silêncios.

Meu trabalho começa muito antes de qualquer consulta. Começa quando alguém sente confiança suficiente para abrir a porta da própria casa e também a porta do coração.

No fim de cada dia, quando os sapatos voltam marcados pelo barro das ruas, descubro que eles também carregam sementes. Nem sempre vejo a colheita. Muitas vezes ela acontecerá semanas, meses ou anos depois. Mas sei que cada orientação, cada escuta, cada visita e cada gesto de respeito deixam alguma coisa plantada.

Talvez o maior cuidado não esteja em resolver tudo.

Talvez esteja em garantir que ninguém enfrente a dor completamente sozinho.

É por isso que continuo caminhando.

Porque sou Agente Comunitário de Saúde.

E aprendi que existem presenças que não aparecem nas estatísticas, mas mudam destinos.

Há curas que começam antes do remédio.

Começam quando alguém bate à porta, chama pelo nome e faz a pessoa lembrar que ela continua pertencendo ao mundo.
Edna Santana Dinha Inocente
Enviado por Edna Santana Dinha Inocente em 26/06/2026


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